quinta-feira, 11 de julho de 2013

Objetividade X Subjetividade

As questões relativas a objetividade e subjetividade do historiador sempre estiveram na pauta das correntes historiográficas. A corrente historiográfica positivista surgida na França no século XIX a partir das ideias de Auguste Comte tinha seus pressupostos herdados do Iluminismo, postulando uma aproximação da História das Ciências Naturais. Comte construiu sua ideia de ciência, introduzindo a concepção de que o conhecimento só pode ser válido se provado pelo método científico. Assim sendo, desconsideravam-se todas as outras formas do conhecimento humano que não pudessem ser comprovadas cientificamente. Os historiadores positivistas acreditavam na possibilidade de descobrir Leis Gerais que regiam as sociedades humanas, na possibilidade de aproximar os métodos das ciências do espírito e das ciências naturais e na ideia de que o pesquisador deveria se colocar em posição de neutralidade perante seu objeto de estudo para se chegar a uma verdade histórica objetiva, ou seja, o historiador deveria apenas narrar os fatos tais como ocorreram sem emitir interpretações e julgamentos. Para a construção do conhecimento histórico, os positivistas valorizavam os documentos escritos e oficiais, narravam a história dos vencedores, dos grandes líderes, das grandes batalhas, em detrimento da história popular, dos vencidos.

O positivismo influenciou a chamada Escola Metódica, cujo manual mais conhecido é o de Langlois e Seignobos, intitulado Introdução aos Estudos Históricos, escrito em 1898. A análise da Escola Metódica era feita de maneira linear, numa “escala evolutiva”, ou seja, o fato histórico está preso na linha do tempo e deveria ser analisado cronologicamente, catalogando os documentos dessa maneira. Para Seignobos, a prática científica da história deveria ficar restrita ao ensino superior e aos períodos recuados. Na sua concepção, para escrever a história contemporânea, as regras do método histórico seriam impraticáveis, sendo então,rejeitados os estudos sobre o mundo contemporâneo, uma vez que nesse campo seria impossível afastar os amadores. A separação entre passado e presente colocada dessa forma radical e as competências eruditas exigidas para trabalhar com os períodos recuados garantiram praticamente o monopólio do saber histórico aos especialistas. Assim, os historiadores recrutados pelas universidades no século XIX eram especializados na Antiguidade e na Idade Média, períodos que exigiam o domínio de um conjunto de procedimentos eruditos. Com isso pretendia-se impor critérios rígidos que permitissem separar os verdadeiros historiadores dos amadores.

Mas como justificar que historiadores profissionais como o próprio Seignobos e Lavisse escrevessem livros sobre o período recente? A resposta fornecida era que se tratava de obras de vulgarização produzidas para o ensino secundário, que tinham caráter pedagógico e deviam formar cidadãos. Seu objetivo não era produzir fatos novos, mas divulgar interpretações novas de fatos já conhecidos. A esse argumento acrescentavam ainda esses autores que a história contemporânea, essencialmente política, se baseava em fontes oficiais. Como essas fontes eram consideradas autênticas, a crítica das fontes, própria do método histórico aplicado ao passado, podia ser dispensável.

Nas décadas de 1919 e 1920, a insatisfação que Marc Bloch e Lucien Febvre demonstravam, em relação a historia política estava vinculada a relativa pobreza de suas análises, em que situações históricas complexas se viam reduzidas a um jogo de poder entre grandes homens e/ou países, ignorando que aquém e além dele, se situavam campos de força estruturais, coletivas e individuais que lhe conferiam densidade e profundidade incompatíveis com o que parecia a frivolidade dos eventos. Da mesma maneira, os Annales, quando propoem uma História-Problema, se afastam do Positivismo ao afirmar que os fatos por si só não dizem nada, que eles precisam ser questionados, problematizados para se construir conhecimento histórico.

Para Lucien Febvre, fazer “uma outra história” era descobrir o homem na plenitude de suas virtualidades, que se inscreviam concretamente em suas realizações históricas. Em consonância com essa ideia, Bloch afirmava em Apologia da História ou o oficio do Historiador, que a História é o estudo do homem no tempo. Dessa maneira, abriu-se o leque de possibilidades do fazer historiográfico, da mesma maneira que se impôs a esse fazer a necessidade de ir buscar junto a outras ciências do homem os conceitos e os instrumentos que permitiriam ao historiador ampliar sua visão do homem. A história passou a ser escrita a partir de diversos pontos de vista, não apenas “de cima” (vencedores, grandes batalhas, grandes líderes) como os positivistas e metódicos, mas a partir “de baixo” (dos vencidos, marginalizados). Da mesma maneira, incorporou-se novos tipos de fontes para a História, já que para o Positivismo e para a Escola Metódica, fontes eram apenas documentos escritos e oficiais. Os Annales então incorporaram uma multiplicidade de fontes tais como iconografia, autos criminais, diários, cultura material, registros demográficos, tabelas, dentre outras, que problematizadas, originavam um novo tipo de construção do conhecimento histórico.

Essa nova maneira de fazer história não alterou contudo a postura anterior no que diz respeito ao período de interesse e às fontes. Da mesma forma que na história dita événementielle, os períodos que receberam maior atenção e se tornaram alvo dos estudos renovadores foram prioritariamente o medieval e o moderno. O século XX recebeu o estigma de objeto de estudo problemático, e a legitimidade de sua abordagem pela história foi constantemente questionada. A impossibilidade de recuo no tempo, aliada à dificuldade de apreciar a importância e a dimensão de longo prazo dos fenômenos, bem como o risco de cair no puro relato jornalístico, foram mais uma vez colocados como empecilhos para a história do século XX. E ainda que Jacques Le Goff tenha apontado a conquista da história contemporânea pela nova história como uma tarefa urgente, pouco foi feito nesse sentido. O contemporâneo podia ser matéria das Ciências Sociais em geral, mas não da história.

Ao valorizar o estudo das estruturas, dos processos de longa duração, a Nova História atribuiu às fontes seriais e às técnicas de quantificação uma importância fundamental. Em contrapartida, ao desvalorizar a análise do papel do indivíduo, das conjunturas, dos aspectos culturais e políticos, também desqualificou o uso dos relatos pessoais, das histórias de vida, das autobiografias. Condenava-se a sua subjetividade, levantavam-se dúvidas sobre as visões distorcidas que apresentavam, enfatizava-se a dificuldade de se obter relatos fidedignos. Alegava-se também que os testemunhos não podiam ser considerados representativos de uma época ou de um grupo, pois a experiência individual expressava uma visão particular que não permitia generalizações. Não é preciso dizer que os historiadores identificados com a tradição dos Annales excluíram a possibilidade de valorização dos testemunhos diretos e das fontes orais. Ancorada em princípios que sustentavam a necessidade do distanciamento temporal do pesquisador frente ao seu objeto, através do que os historiadores costumam chamar de visão retrospectiva, ou seja, a possibilidade de trabalhar com processos históricos cujo desfecho já se conhece, a história criava limitações para o trabalho com a proximidade temporal, por temer que a objetividade da pesquisa pudesse ser comprometida.

Para Agnês Chauveau e Philippe Tétart, pode-se sublinhar como motivos para o surgimento da História do Presente a história renovada do político e o impacto dos traumas da geração no pós Segunda Guerra , quando a sociedade exigia esclarecimento a respeito de tais traumas. Ambos autores tem como pressuposto metodológico que a história não é somente o estudo do passado, mas também o estudo do presente. Serge Bernstein e Pierre Milza, citados por Filho, afirmam que é possível buscar no passado novos objetos de estudo em função de preocupações do presente. Ou seja, o historiador parte de indagações acerca do presente para problematizar o passado, o que vai de encontro com a afirmação de Le Goff acerca da importância de se esclarecer o presente pelo passado e o passado pelo presente.

Estudar o presente pressupõe o desafio do historiador, contemporâneo ao seu objeto de estudo, em manter a neutralidade diante do mesmo. Porém, acredita-se que independente do momento histórico estudado, a subjetividade do historiador sempre se fará presente, na medida em que ele parte de uma problemática do presente para questionar um evento passado. Assim, a questão da subjetividade/objetividade do historiador é intrínseca a própria construção do conhecimento histórico, independente do tempo, do período estudado, já que o próprio historiador é resultado de um processo histórico que determina suas preferências, a maneira como pensa, suas concepções de mundo. Uma das críticas ou desafios à Historia do Tempo Presente é o fato de que na história contemporânea muitas das sequencias de acontecimentos de estudos não terão ainda terminado, pelo que o historiador não conhece o resultado e não o pode usar na avaliação que ele mesmo faz dos acontecimentos. Não conhecer o desfecho dos acontecimentos não impede o historiador de interpretá-los, pois mesmo no passado, em episódios com desfecho conhecido, o conhecimento construído acerca dos mesmos não estão acabados, já que a história é interpretação, construção a partir de problemáticas levantadas no presente.

Dessa maneira, a presente pesquisa parte de reflexões acerca da evolução na medicina na atualidade, após o mapeamento do DNA humano, onde se tornou possível a mudança dos caracteres humanos antes do nascimento e até da concepção, onde os pais podem escolher o sexo ou cor de olhos do bebê, onde é possível localizar genes “defeituosos” no DNA humano que poderiam culminar em doenças. A Eugenia, criada no século XIX por Francis Galton, tinha como objetivo criar um "haras humano", povoando o planeta de gente sã, estimulando o casamento entre os "bem dotados biologicamente" e desenvolvendo programas educacionais para a reprodução consciente de casais saudáveis, desencorajando casais com caracteres supostamente "inferiores". A Eugenia negativa representava a radicalização dos métodos de aperfeiçoamento da raça, visando prevenir os nascimentos dos "indesejáveis" biológica, psicológica e socialmente através da esterilização eugênica (consentida ou não); das licenças para realização de casamentos, das leis de imigração restritiva, a eutanásia, infanticídio e aborto. No Brasil dos anos 1930, o médico e sanitarista Belisário Penna propôs projetos de educação higiênica para sanear o povo brasileiro, pois para ele a questão da saúde e da educação eram elementos cruciais na construção da nacionalidade.

Referências:

BURKE, Peter. A Escola dos Annales 1929-1989 A revolução francesa da historiografia. São Paulo: Editora Unesp, 1991.

FERREIRA, Marieta de Moraes. História, Tempo Presente e História Oral. In: Topoi, Rio de Janeiro, dezembro 2002, pp. 314-332. Acesso: 10/07/2013. Disponível em: http://www.revistatopoi.org/numeros_anteriores/topoi05/topoi5a13.pdf

FILHO, Eduardo M. de A. M. Para uma História do Tempo Presente: o ensaio de nós mesmos. In: Fronteiras: Florianópolis, n.17, p.137-151, 2009. Acesso: 09/07/2013. Disponível em: http://www.anpuh-sc.org.br/revfront_17%20pdfs/art7_format_paraumahtp_eduardo.pdf

KRAGH, Helge. Introdução a Historiografia da Ciência. Porto Editora, 2001.

PEREIRA, Roberto Mendes Ramos. Os desafios da História (Política) do Tempo Presente. In: OPIS, vol. 7, n° 9, jul-dez, 2007, pp. 151-165.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Reflexões acerca da obra Ciência e Estado, de Regina L. M. Morel.

A obra de Morel contribui na pesquisa a ser desenvolvida na medida em que traz reflexões acerca do conceito de intelectual orgânico de Antonio Gramsci. Para ele, todo grupo social cria para si uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e político. Deste modo, Belisário Penna e sua proposta de construção de nacionalidade através do sanitarismo e da educação sanitária é aquele que se dedica a defender/ criar uma ideologia de um grupo específico, que consiste nos seus pares, médicos e outros intelectuais que defenderam no Brasil dos anos 20 e 30, a eugenia.  Morel continua sua explanação afirmando que, como funcionários da superestrutura, caberia aos intelectuais orgânicos da classe dirigente, garantir, ao nível da sociedade civil, a hegemonia desta classe e também teriam, na sociedade política, funções no aparato administrativo e coercitivo do Estado. Assim, cabe a esta pesquisa investigar as propostas sanitárias e atuação de Penna na Liga Pró-Saneamento do Brasil, depois como inspetor de Propaganda e Educação Sanitária e posteriormente, a convite de Getúlio Vargas para organizar o serviço local de higiene do Rio Grande do Sul. Cabe compreender de que forma suas propostas foram apresentadas e justificadas como sendo organizações necessárias para a sociedade racional, tendo em vista que seu discurso sanitário, que buscava sanear a população brasileira a fim de se combater doenças não era neutro, sem intencionalidade, pois para o mesmo, a construção da nacionalidade brasileira estava vinculada a educação e propaganda sanitária, capaz de moldar o cidadão.

Referências:

MOREL, Regina Lúcia de Moraes. Ciência e Estado: a política científica no Brasil. São Paulo; T.A. Queiroz, 1979.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Grã Bretanha aprova inseminação tripla polêmica

Procedimento estará disponível para casais em até dois anos

• • atualizado às 09h15

O governo britânico declarou apoio à técnica pioneira de fertilização in vitro que permite a transferência dos genes de pais que tenham apresentado doença mitocondrial para o óvulo de uma doadora saudável. A doença mitocondrial é degenerativa e tende a matar bebês em poucos meses.

Críticos afirmam que a técnica é antiética, já que o novo óvulo fecundado também carrega pequenas partículas do DNA da doadora.
Mas o governo britânico aguarda apenas os testes finais para legalizar o procedimento, que estará disponível para casais em até dois anos.